Vendedores do mundo, vendam

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Por: Noemi Jaffe

O teste Descubra a fonte de seus pontos fortes lista 34 tipos de talentos, que, segundo a definição, são capacidades inatas, passíveis de desenvolvimento para que o indivíduo se torne um “vendedor fora de série”. Entre os talentos estão: “adaptabilidade”, “analítico” (por que razão misturam substantivo e adjetivo não sei dizer), “ativação”, “empatia”, “disciplina”, “harmonia”, “positivo”, “restauração” e “significância”.

O livro todo promete ajudar a pessoa interessada em vender a usar seus talentos para transformá-los em habilidades e oportunidades. “Talento x Investimento = Ponto Forte”, sendo “ponto forte”, no caso, a “capacidade de desempenhar um trabalho de forma quase perfeita, consistentemente”.

Do ponto de vista de alguém interessado em vender, o livro, provavelmente, é eficaz e, eventualmente, até original. Sendo assim, fica difícil comentar sua utilidade ou conveniência. Vendas são necessárias – isso é fato (embora eu, muitas vezes, o lamente).

Por outro lado, do ponto de vista de alguém que não trabalha explicitamente com vendas, como eu, algo soa fora de lugar, fora de série, talvez. Por que a sensação de que vendedores devem ser tratados como se fossem estúpidos? Como se não soubessem o que são “talentos”, “pontos fortes”, “pontos fracos” e “investimentos”? Por que a sensação de que o fantasma do “loser” – essa tirania – ronda cada milímetro da vida desses vendedores, condenados a ler esses aconselhamentos infantis, como se, antes de virar a página, eles pudessem perder a grande chance de se tornar um “winner” definitivo?

Será que alguém realmente faz o teste “descubra a fonte e seus pontos fortes” e, após cumpri-lo, se sente surpreso ao descobrir que é dotado do talento “harmonia”, para então proceder no sentido de aproveitá-lo, conforme as prescrições do livro e, enfim, tornar-se um vendedor fora de série?

Sim, sabemos que sim, essas pessoas existem.

Mas como é triste pensar que, na solidão dos escritórios de arquivos metálicos, com cadeiras de fórmica falsa, pessoas estejam calculando sua dose de talento, multiplicando-a pelo valor do investimento, para enfim atingir seus pontos fortes. E que nos escritórios forrados de tapetes persas, em que, supostamente, já se descobriram os pontos fortes, chefes estejam felizes por se já ter atingido o estágio do fora de série. Como é triste ainda não ser um “winner” e precisar ler esse livro; mas como é ainda mais triste ser o “winner” que o dispensa.

Mas será então que a conclusão, aqui, é que vender é, fundamentalmente, triste? Ou então que ser um “winner” ou buscar sê-lo é inevitavelmente um fracasso?

Creio que não. É a venda como filosofia, como forma de vida, como substituto da vida, como série-de-passos-a-ser-seguidos-para-se- tornar-um-winner-fora-de-série, como oportunização e otimização das experiências que torna tudo tão melancólico.

Vender é uma profissão como outra qualquer – nobre e terrível de sua forma própria. Mas a necessidade – presente nesses manuais infalíveis, nas palestras motivacionais, nas viagens corporativas etc. – de que se empenhe a própria vida (talentos, habilidades, desejos, medos) em nome da crença em um produto, é simplesmente terrível.

Vendedores do mundo, vendam. Ou não vendam. Mas voltem para casa. E lá, no recolhimento ou na confusão que houver, percam. Percam o relógio, a caneta, a chave do carro, o compromisso. Garanto: é melhor do que fazer o teste Descubra a fonte dos seus pontos fortes.

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Vendedores do mundo, vendam

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