O QUE O FRACASSO PODE FAZER POR VOCÊ

A AMERICANA SARAH LEWIS REUNIU HISTORIAS PARA MOSTRAR QUE O CAMINHO DO SUCESSO NÃO É UMA LINHA RETA – E QUE CADA ERRO QUE COMETEMOS PODE SER UMA CATAPULTA PARA A PRÓXIMA IDEIA

Sarah Lewis (Foto: Divulgação)

Todo mundo gosta de ouvir histórias de sucesso. Elas nos inspiram e nos mostram que é possível alcançar feitos grandiosos por diferentes caminhos. Mas quando contamos essas trajetórias, costumamos falar sobre esse caminho como uma linha reta de ascenção, como se as conquistas se acumulassem até atingir um ápice. A pessoa saiu de uma vida simples para a riqueza sem escalas. Ou foi de analista a diretor como um foguete.  Mas a verdade é que o caminho não é uma linha reta. A conquista da excelência geralmente requer cair e levantar muitas vezes.

É essa linha torta das trajetórias de sucesso que a norte-americana Sarah Lewis explora em seu novo livro, O Poder do Fracasso, lançado este ano no Brasil. O texto conta dezenas de histórias, aparentemente sem relação umas com as outras, mas que ajudam a construir o argumento da narrativa: o fracasso precisa ser abraçado e pode nos impulsionar para a frente.

O Poder do Fracasso (Foto: Divulgação)O PODER DO FRACASSO (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Sarah é crítica de arte e também atua como curadora. Sua própria trajetória pode ser considerada um sucesso: graduou-se em Harvard, fez mestrado em Oxford e doutorado em Yale. Em 2010, ela foi considerada uma das mulheres mais poderosas do mundo pela Oprah Magazine e trabalhou no Comitê de Políticas para as Artes, a convite do presidente Barack Obama. Ela sempre teve curiosidade em saber como o fracasso afetava as pessoas – a redação que escreveu para ser aceita na faculdade, inclusive, já tocava nesse assunto.

“Muitas de nossas conquistas mais grandiosas – desde descobertas recentes, ganhadoras do Prêmio Nobel, passando por  clássicos da literatura, das artes plásticas e da dança, até empreendimentos inovadores revolucionários – foram, na verdade, não proezas revolucionárias, mas correções graduais, ajustes incrementais, com base na experiência adquirida”, afirma Sarah.

A seguir, confira nove histórias reunidas no livro que provam que o caminho para o sucesso é permeado por fracassos e uma entrevista com a autora.

Julie Moss
Em 1982, Julie Moss estava em seu último ano de faculdade e resolveu se inscrever em um triatlon de Ironman no Havaí. O objetivo era coletar, durante os mais de 220 km de percurso, dados sobre si mesma para sua monografia. Ela leu um artigo em uma revista especializada e se preparou durante apenas dois meses. Após nadar 3.860 metros e pedalar 180 km, ela estava em primeiro lugar na corrida de 42 km quando só faltavam dois quilômetros para terminar. A vitória parecia próxima, mas a menos de um quilômetro da linha de chegada, ela passou a sentir cãimbra. Ela começou a mancar, até que não aguentou e desabou. A mulher que estava em segundo a ultrapassou e venceu a corrida. Mas Julie não desistiu. Engatinhou os últimos metros e se esforçou tanto que perdeu o controle das funções corporais, sujando as calças em rede nacional. Ela não ganhou, mas a experiência no Havaí mudou sua vida para sempre. “Senti que estava mudando naquele instante. Assumi um compromisso comigo mesma. E o cumpri”, disse Julie. Segundo Sarah, o impulso de chegar perto pode ajudar a nos superarmos.

Paul Taylor
Taylor é considerado um dos maiores coreógrafos americanos. Na década de 1950, no entanto, nada levava a crer que ele alcançaria esse posto. Uma de suas primeiras apresentações terminou com a plateia quase vazia e foi considerada pela crítica um fracasso total. A coreografia consistia em reproduzir movimentos rotineiros e posturas comuns. O crítico de dança Louis Horst não encontrou palavras para descrever o que viu. Sua resenha no jornal consistiu em uma página em branco. Ele mencionou o título e o local da apresentação e assinou em baixo, após uma lacuna vazia. Taylor diz que nunca superou a resenha em branco de Horst. Mesmo assim, o coreógrafo não deixou de fazer o que acreditava ser sua dança. Cinco anos mais tarde, ele conseguiu ser aclamado pelo público em uma apresentação muito mais fluida, mas que, no fundo, era baseada nos mesmos movimentos da coreografia tão duramente criticada. O que Sarah defende é que lidar com a lacuna entre a visão do artista e a obra é um processo contínuo. “Fechar a lacuna significa enfrentar a resenha em branco. Os artistas precisam aprender a se blindar contra críticas que os sufocam, mas também saber quando aceitá-las para ver as próprias obras com novos olhos”.

Ben Saunders (Foto: Reprodução/ Twitter)BEN SAUNDERS (FOTO: REPRODUÇÃO/ TWITTER)

Ben Saunders
Em um boletim escolar de quando tinha 13 anos, ficou gravado: “Ben não tem motivação suficiente para realizar qualquer coisa de mérito”. Ben Saunders foi a pessoa mais jovem a chegar ao Polo Norte sozinho e a pé. Mas a jornada não foi fácil. Com 21 anos, em 2001, ele fez sua primeira trilha na região – uma tentativa frustrada. Precisou voltar depois de completar dois terços da viagem, perder 15 quilos e ter um dedo do pé congelado. Ao voltar para casa, entrou em depressão, achando que tudo aquilo era um fracasso. Foi só depois de muitas semanas que ele começou a ver a tentativa como acúmulo de experiência. Foi só na terceira viagem que ele conseguiu realizar a proeza. E a chegada ao Polo Norte foi permeada de pequenos fracassos que Saunders tinha de superar diariamente. As placas de gelo sobre as quais ele avançava, por exemplo, também se deslocavam. Assim, em alguns dias, mesmo percorrendo quilômetros, o explorador não avançava sequer 100 metros – porque o gelo o empurrava para trás na mesma proporção. “Depois da dor profunda de chegar perto e não conseguir, de toda espécie de fracassos, emergimos com força suficiente para abraçar, avançar e triunfar”, diz Sarah sobre a história de Saunders.

Charles Black Jr.
O fracasso nem sempre se manifesta quando cometemos um erro. A sensação pode nos invadir também quando percebemos que há algo errado com o mundo e nos convencemos de que nossas opiniões (e ações) precisam ser corrigidas. Foi o que aconteceu com Charles Black Jr. O garoto de Austin, no Texas, tinha 16 anos quando viu pela primeira vez o trompetista Louis Armstrong. A música de Armstrong o fascinou de tal maneira que o fez mudar sua visão sobre a humanidade – nesse caso, os negros. Anos mais tarde, Black se juntaria à equipe de advogados do processo judicial Brown versus Comitê Escolar, que convenceu a Suprema Corte dos Estados Unidos a decidir, por unanimidade, que a segregação racial é ilegal. Ele se tornou um dos mais eminentes advogados constitucionalistas dos EUA.

Sara Blakely (Foto: Getty Images)SARA BLAKELY (FOTO: GETTY IMAGES)

Sara Blakely
A fundadora da Spanx, fabricante de roupas íntimas, é uma das poucas mulheres bilionárias do mundo que fez sua riqueza sem ajuda da herança dos pais ou do marido. Durante os jantares na sua infância, seu pai costumava perguntar: “Em que você falhou hoje?”. Ele vibrava com os relatos de Sara e seu irmão. Ela diz que a influência do pai transformou sua percepção e seu conceito de fracasso: as falhas não eram o resultado final, mas apenas tentativas descartadas. Algo parecido com a pergunta do pai de Sara são os seminários denominados FailCon. Eles começaram no Vale do Silício e se espalharam por outros países. O objetivo é trazer personalidades – como o fundador do Uber – para falar apenas sobre seus fracassos, expondo em público seus erros e retrocessos.

Martin Luther King Jr.
Um ícone do movimento negro nos Estados Unidos, conhecido por seus discursos inspiradores, Luther King nem sempre foi bom ao falar em público. Como resposta emocional a tudo o que enfrentara durante a vida, ele desenvolveu um tique: soluçava no meio do discurso. No colégio, passou duas vezes de ano tirando apenas a nota mínima para ser aprovado em oratória. Um dia, seu amigo Harry Belafonte percebeu que o tique havia desaparecido. Ele perguntou como Luther King o tinha superado. “Depois que fiz as pazes com a morte, consegui fazer as pazes com todo o resto”, disse. Segundo Sarah, uma das maneiras de superar uma dificuldade é reconhecê-la e render-se a ela, ao invés de tentar afastá-la. “Quando a pessoa se rende, sente o peso da situação ou do contexto e avalia melhor a maneira de seguir caminhando”.

Andre Geim (Foto: Getty Images)ANDRE GEIM (FOTO: GETTY IMAGES)

Andre Geim
O ganhador do Nobel de Física é um ótimo exemplo de que, para atingir a excelência, é preciso passar por estradas desconhecidas e colocar o risco e o fracasso como parte do trabalho. Geim criou em seu laboratório os “Experimentos de Sexta à Noite”, nos quais são feitas experiências meio malucas que provavelmente não darão em nada – mas, se derem, demonstrarão algo surpreendente. Ele e sua equipe dedicam 10% de seu tempo a isso. Muitas vezes, eles saem de sua área de expertise e colocam um novo olhar sobre uma questão. Desse método, saíram dois resultados especialmente importantes. Um deles rendeu a Geim em 2000 o Ig Nobel (que premia pesquisas inusitadas), por ele ter feito uma rã levitar usando imãs. Outro, pelo isolamento do grafeno, deu-lhe o Nobel em 2010. Geim, único cientista a ter recebido as duas honrarias até hoje, resume assim sua filosofia: “é melhor estar errado que ser chato”.

Samuel Morse
O sonho do inventor do telégrafo era ser pintor. Em uma de suas cartas, ele chegou a expressar seu desejo de rivalizar com Michelangelo. Não chegou nem perto – pelo menos no campo da pintura. Ele ouviu todo tipo de crítica sobre suas obras e não conseguiu ganhar dinheiro com elas. Mas Morse também era um especialista em fracassos. Desde que começou pintar e percebeu que, para melhorar era preciso reconhecer os erros, ele começou a estudar a reação de grandes personalidades às derrotas. O grande mérito de Morse, segundo Sarah, foi retraçar a rota da sua vida e investir na ideia do telégrafo. Segundo ela, para atingir a excelência, é essencial saber quando desistir e quando persistir. Para que o aparelho funcionasse, Morse investiu seu tempo com o mesmo afinco que dedicava às pinturas e a mesma visão sobre tentativa e erro.

Entrevista com Sarah Lewis

Por email, Sarah respondeu algumas perguntas sobre o que a inspirou a escrever o livro e as lições para o mundo dos negócios.

No seu livro, você diz que sempre teve curiosidade de saber como a superação de obstáculos pode transformar as pessoas. Quando decidiu escrever o livro?
O caminho para a excelência nunca é uma linha reta. As histórias de vida dos nossos ícones mostram isso. Escrevi o livro, porque sou fascinada por quão pouco discutimos esse fato. Fiquei surpresa ao descobrir que Martin Luther King, Jr. tirou C em sua aula de oratória, por exemplo. A autora J.K. Rowling passou anos sem dinheiro, escrevendo seus livros em guardanapos, vendo sua ideia para o Harry Potter ser rejeitada em quase todas as editoras. E assim vai. Eu aprendi que há vantagens insubstituíveis que surgem da linha torta da maestria e da criatividade. Queria que a próxima geração tivesse um senso dessa verdade e registrar isso em meu livro para mostrar a capacidade do espírito humano.

Qual a coisa mais importante que você aprendeu escrevendo o livro?
O papel crucial de muitas características, como a importância da persistência, da sabedoria de quando desistir, a necessidade de buscar a maestria sem deixar de ter o deslumbramento infantil e o papel da privacidade para o trabalho inovador.

As pessoas só estão dispostas a falar de fracasso quando já garantiram o sucesso? 
Isso pode ser verdade. Geralmente, sim. Descobri que a maioria das pessoas dispostas a falar sobre seus fracassos o fizeram após um período de sucesso.

É possível atingir a excelência em uma cultura que cada vez mais quer o prazer imediato, quando as pessoas cada vez menos querem esperar para ver resultados?
Esse é o desafio. Excelência tem a ver com fazer sempre um trabalho melhor do que o último. Isso pode deixar as pessoas com uma sensação de fracasso parcial, de ter deixado coisas incompletas. Paul Cézanne, por exemplo. Ele não assinou 90% de suas pinturas, porque sentiu que estavam incompletas. William Faulkner não ficou satisfeito com O Som e a Fúria apesar de seu sucesso. Ele reescreveu seções e publicou como um apêndice na edição seguinte. Franz Kafka não queria publicar seu trabalho. Esse sentimento de que nosso trabalho é uma quase-vitória pode ser produtivo. Cataliza, inspira. Mas não significa gratificação. Você põe no mundo e seu trabalho é criticado ou aclamado. Não importa, a jornada interior continua. Pense de novo em J.K. Rowling: apesar de ter se tornado uma celebridade, ela ainda queria se superar. Escreveu Morte Súbita usando um pseudônimo. A criatividade tem a ver com fechar a lacuna do que você é e onde você quer chegar. É um processo de vida inteira e uma jornada muito pessoal, que nada tem a ver com como as pessoas enxergam seu trabalho. Essa é a jornada que alguns chamam de maestria.

Como líderes e empresas podem usar o fracasso como vantagem? 
A resposta está na cultura organizacional.  Como criar uma cultura com um menor constrangimento associado ao erro para permitir a inovação? Existem os fracassos louváveis e os fracassos condenáveis, como diz Amy Edmondson, da Universidade de Harvard. Os louváveis acontecem quando uma companhia tenta inovar. Há muitas maneiras de criar uma cultura que honra fracassos louváveis que acontecem com frequência no caminho de um sucesso. A Clínica Mayo [rede americana de hospitais] criou o prêmio “águia desnorteada”, dado a ideias para patentes que não foram bem-sucedidas. Isso levou a um aumento de ideias inovadoras.

Você concorda com a ideia de que, quando falamos de inovação, é melhor cometer muitos erros em pouco tempo do que passar muito tempo pensando em uma ideia?
A IDEO [empresa de design] tem aquele slogan “falhe com frequência para ter sucesso antes”. Eu gosto. No entanto, não tenho certeza de que, na vida em geral, velocidade é o objetivo com erros. Quero dizer, se você tenta superar o fracasso ou errar rápido, nem sempre está tomando o tempo necessário para examiná-los. Para se transformar com o fracasso, você precisa vivenciá-lo plenamente ou cometerá o mesmo erro de novo.

Pais deveriam falar mais sobre o fracasso com seus filhos, como fizeram os de Sara Blakely?
Sim. Pelo menos nos Estados Unidos, não damos com frequência uma chance para alunos e crianças errarem. E falarem sobre isso. E é importante, porque sem vivenciar o fracasso, não podemos desenvolver a perseverança, o comprometimento com metas de longo prazo. A pesquisa de Angela Duckworth descobriu que essa característica é o melhor parâmetro para prever conquistas escolares, mais do que talento ou QI. Mas isso não se desenvolve sem a experiência do revés, sem o feedback após o fracasso. Passar pelo fracasso também é importante, porque há tempos em que desistir pode ser a melhor resposta também. A perseverança precisa ser flexível.

Como você escolheu as histórias que colocou no livro?
Há vezes em que eu leio meu próprio livro e não tenho ideia de como achei algumas dessas histórias. Eu tenho assistentes de pesquisa no céu, tenho certeza. De que modo eu explicaria isso? Bom, há dois jeitos. Um, eu segui meus instintos. Você tem um impulso, clica em um link, lê um livro, e tem aquela sensação de que encontrou a ideia certa. A segunda abordagem, igualmente importante, foi seguir os métodos que aprendi nas faculdades. Amo pesquisar.

Qual o feedback que você tem recebido sobre o livro?
Fiquei surpresa com a resposta. Assustei-me com o número de organizações que me pediram para falar com elas sobre o livro, da MasterCard ao Fed. Tem sido ótimo. O comentários são muito gentis para replicar, eu ficaria envergonhada.

Fazendo um paralelo do seu livro com o filme Whiplash, o professor de música (J.K. Simmons) diz que não existem duas palavras mais nocivas na língua inglesa do que “bom trabalho”. De certa maneira, ele está tentando incutir um constante senso de fracasso nos alunos, para que eles não parem de praticar. Existe um limite de quanto aguentamos de críticas?
Adoro esse filme. O professor está tentando fazer seu aluno se esforçar mais, porém, como o filme mostra, excesso de crítica pode paralisar o espírito. Nem sempre, porém. O que previne que isso aconteça é uma eterna questão: como chegamos ao auge da nossa criatividade e suportamos a crítica não é só uma questão para artistas, mas para todos nós. Estamos todos criando nossas vidas.

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