Como a tecnologia manipula as bolsas de valores

Michael Lewis, escritor de FlashBoys, e Brad Katsuyama, operador que inspirou o livro, debatem como softwares de alta frequência enriquecem um pequeno grupo de Wall Street

Michael Lewis (Foto: Luiz Prado / Agência LUZ/ BM&FBOVESPA)

“Eu escrevi vários livros sobre Wall Street. Mas foi a primeira vez que escrevi algo que tirou dinheiro de Wall Street”, diz o escritor e jornalista americano Michael Lewis sobre o seu bestseller FlashBoys. Lançado em 2014, o livro causou polêmica e até certa revolta ao trazer à tona com maiores evidências a questão da manipulação causada pelos computadores e softwares de alta frequência no mercado financeiro. Em visita ao Brasil, para participar de debate no 7º Congresso Internacional de Mercado Financeiro e de Capitais, realizado neste sábado em Campos do Jordão (SP), Lewis trouxe também o canadense Brad Katsuyama, operador que inspirou o livro.

Em 2008, Brad Katsuyama trabalhava no Royal Bank of Canada. O banco havia acabado de instalar uma tecnologia nova e Katsuyama ficou curioso quando percebeu que os preços da ações mudavam instanteamente quando ele dava uma ordem de compra. “Nada acontecia até eu apertar o botão. Não era coincidência. Eu era o evento”, conta. A partir daí, em uma saga de entrevistas com vários especialistas, funcionários e traders, ele descobriu que a partir de redes ultra rápidas de fibra ótica softwares se tornavam capazes de influenciar diretamente o mercado financeiro americano.

A tese central do livro FlashBoys é que novos algoritmos que permitem realizar transações em alta frequência (HFT) de compra e vendas de ações em milésimos de segundos dão poder e (muito dinheiro) a investidores e empresas que detêm essa tecnologia. Esses investidores aproveitam-se de distorções momentâneas no preço de papéis, realizando transações frenéticas e automáticas. Uma lógica, segundo Lewis comenta, totalmente diferente daquela do investidor comum que compra uma ação e busca o rendimento ao longo de muitos anos. “A manipulação é sutil, são vantagens imperceptíveis aos olhos. E alguém sai ganhando muito”, diz Lewis.

Um dos grandes culpados por essa distorção, na visão de Katsuyama e Lewis, é a fragmentação do mercado financeiro nos Estados Unidos. Há 11 bolsas de valores públicas e 40 dark pools, como são chamadas as plataformas eletrônicas de negociação criadas para “ajudar” os bancos. Um investidor pode remeter sua ordem de compra a várias bolsas e plataformas de uma vez, com o objetivo de obter o melhor preço. Mas os HTFs recebem o pedido primeiro e correm para adquirir uma ação antes do investidor, revendendo-a a um preço maior. “Criou-se vários intermediários que estão recebendo informação privilegiada e que tem a velocidade tecnológica para ganhar vantagem”, diz Katsuyama. Essas plataformas não são estão sujeitas a regulamentações como a bolsa, o que torna o processo não transparente. “Toda vez que há uma mudança de preço é porque alguém soube antes do outro. Quanto mais rápido essa mudança, mais alguém está lucrando”.

Lewis e Katsuyama afirmam que quem mais ganha dinheiro hoje em Wall Street está envolvido em algum tipo de manipulação decorrente dessas vantagens tecnológicas. O investidor comum sai sempre perdendo, segundo ele, porque quando compra sua ação já estará atrás de milhares de outros traders que acabaram manipulando o papel utilizando os softwares de alta frequência.

O que mudou após o livro

Para Lewis, os traders não vão deixar de aproveitar todas essas vantagens só porque o seu livro fez essa denúncia. Ele afirma ter recebido ligações do FBI e do Departamento de Justiça americano que disseram que iriam investigar o caso. “Mas a história é complexa, porque os fundos por trás dessas operações de manipulação ganham muito dinheiro. Esse dinheiro financia políticos e muita gente finge que não é um problema”. Ele acredita também que os órgãos regulatórios dos EUA possam estar analisando as distorções para apontar as questões somente daqui a alguns anos, “para que não pareça que estão reagindo ao livro”. Do lado dos investidores comuns, ele diz que muitos ficaram bastante “irritados”. “Muitos viram que estavam completamente no escuro, com outros manipulando suas ações. Muitos vão criar seus prórios grupos, como o Brad, e plataformas de negociações”.

Nas bolsas americanas, a consequência da aplicação tecnológica é que as bolsas vão ficando cada vez mais complexas e as operações, menos transparentes, segundo Lewis. “Desenvolver toda a complexidade gera mais complexidade. E as pessoas ficam sem entender como funciona. Até os operadores. A bolsa de Nova York, por exemplo, já parou por três horas por uma pane tecnológica” .

A despeito da polêmica, Katsuyama sente que são os pequenos grupos que tomaram atitudes para mudar o modo de investir. “Tem gente que finge que nada está acontecendo. A inércia, aliás, é umas das principais forças motrizes dessa situação. O trader gosta de fazer a mesma coisa sempre. É difícil mudar o comportamento”.

Criando a prória bolsa
Brad Katsuyama (Foto: Luiz Prado / Agência LUZ/ BM&FBOVESPA)Brad Katsuyama (Foto: Luiz Prado / Agência LUZ/ BM&FBOVESPA)

Em uma tentativa de criar outra maneira de negociação, sem ignorar os avanços tecnológicos, Katsuyama fundou a sua própria plataforma. Começou com uma dark pool, negociando US$ 9 milhões e, na última segunda-feira, afirma ter conseguido chegar a US$ 100 milhões – o grande volume é um caminho para, em breve, abrir oficialmente uma bolsa.

Ele afirma que a negociação que ocorre lá é diferente. Ele divulga todas as operações, estatísticas e transações. Para ele, a transparência é a melhor forma de lutar contra a manipulação dos mercados.

“Os outros dark pool não publicam, por exemplo, nenhuma oferta, demanda, são um buraco negro total”. Os traders que aceitaram trabalhar com ele não fazem uso dos softwares de alta frequência para se antecipar. “Não abrimos mão de utilizar os computadores, mas os traders estão submetidos a muitas regras pré-estabelecidas para que não influenciem no preço do papel”, diz. Lewis e Katsuyama defendem que a tecnologia melhorou muito as negociações, mas que tornou os mercados reféns de máquinas e softwares – que se sobrepõem às “ordens humanas”. Para eles, essa eficiência na rapidez não vale o custo gerado pela manipulação.

Lewis acredita que, se uma bolsa criada aos moldes da  Katsuyama funcionar, poderá atrair muitos investidores e ser uma plataforma com relevância em termos de negociação. Para ele, isso estimularia que o softwares de alta frequência não fossem tão amplamente utilizados e cada vez mais desenvolvidos. No futuro, ele afirma que seu desejo é enxergar uma fragmentação menor, com menos bolsas atuando e maior regulamentação. Os investidores, no geral, sairiam ganhando. A dúvida é saber se Wall Street vai concordar com ele.

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