A tecnologia evoluiu – por que continuamos trabalhando como no século passado?

 (Foto: Revista Galileu)

Se você compartilha a ideia de que há pouca diferença entre caminhar sobre espinhos e brasa quente e acordar na segunda-feira para mais uma semana de expediente, não se sinta mal: a palavra “trabalho” tem origem no latim tripalium, nome dado a um instrumento de tortura utilizado para punir escravos desobedientes.

De lá para cá, pensadores de diferentes épocas e ideologias observavam o esforço de camponeses, artesãos e operários e davam a maior força para eles — filosoficamente, é claro. “O trabalho poupa-nos de três grandes males: tédio, vício e necessidade”, dizia o iluminista francês Voltaire. Já o alemão Karl Marx considerava que a produção material era responsável por cimentar os diferentes aspectos de uma sociedade, incluindo a própria concepção de identidade dos seres humanos. Hoje, ao mesmo tempo que a automatização de processos permitiu o aumento de produtividade, ainda convivemos com questões de décadas passadas, como longas jornadas de trabalho, insatisfação com o cotidiano das cidades e a ameaça do desemprego. Governos e empresas têm papel central nessa discussão, mas a busca por mudanças também parte das novas gerações, que desejam algo além do expediente das nove às 18 horas.

Trabalhadores do mundo, uni-vos!

NA PRESSÃO
Aumenta número de brasileiros insatisfeitos

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que 7% da população mundial — ou 400 milhões de pes­soas — sofrem de depressão. No Brasil, a doen­ça está na 13ª colocação entre as principais causas que provocam afastamento do trabalho, de acordo com dados de 2015 do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Na cidade de São Paulo, a depressão é o terceiro maior motivo que afeta a saúde do trabalhador. “Os problemas são motivados por longas jornadas de trabalho e excesso de tarefas”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente do Isma-BR (International Stress Management Association).

Em abril deste ano, o instituto, especializado no estudo e no tratamento do stress, divulgou uma pesquisa realizada com mais de mil profissionais de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo a respeito da qualidade de vida no trabalho. Os resultados indicam que em diferentes segmentos o índice de insatisfação chega a 72% dos entrevistados. “As pessoas não conseguem dar conta das atividades exigidas pelas empresas, e isso desequilibra a vida profissional e pessoal, o que leva a má alimentação, menos tempo de sono e falta de atividades físicas”, diz Ana Maria. Para Luciana Caletti, CEO da empresa brasileira Love Mondays, plataforma on-line feita para que funcionários avaliem anonimamente suas empresas, aspectos como salário baixo e falta de reconhecimento dos chefes são algumas das principais reclamações: “Com a crise econômica, a perspectiva de trocar de emprego caiu bastante, assim como a expectativa de aumento salarial.”

 (Foto: Revista Galileu)
EXPEDIENTE PUXADO
Brasil tem uma das maiores jornadas semanais de trabalho do mundo
 (Foto: Revista Galileu)

O automóvel Ford T, produzido em 1913, revolucionou o capitalismo mundial ao introduzir linhas de montagem capazes de diminuir o tempo de fabricação dos veículos de 12 horas para apenas 90 minutos, o que possibilitou a diminuição dos preços e a massificação do produto. Hoje, fábricas como a da Hyundai, na cidade sul-coreana de Ulsan, são capazes de rolar da linha de produção novos carros a cada 12 segundos, graças à robotização de parte dos processos. Mas, se é verdade que as 16 horas diárias de expediente dos tempos da Revolução Industrial ficaram para trás, ainda gastamos boa parte de nosso dia no trabalho. “O Brasil tem uma das maiores jornadas de trabalho legais do mundo, com a possibilidade irrestrita de horas extras”, diz Cássio Calvete, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (­UFRGS) e especialista no assunto. Em 1988, com a nova Constituição, os legisladores ajustaram pela última vez a jornada de trabalho, que caiu de 48 para 44 horas semanais. “O aumento da produtividade permitiria a redução das horas trabalhadas, mas isso não acontece por conta das empresas, que desejam lucros cada vez maiores”, afirma Calvete.

 (Foto: Revista Galileu)
MAPA DA VERGONHA
Levantamento feito pela organização Walking Free Foundation indica que milhões de pessoas ainda vivem em condições semelhantes à escravidão

O QUE É ESCRAVIDÃO MODERNA: Os organizadores da pesquisa consideram que um ser humano vive em condições análogas à escravidão quando tem sua liberdade restringida por outra pessoa, com a intenção de explorá-la. Tráfico humano e exploração sexual também fazem parte desse conceito.

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NO OLHO DO FURACÃO
Em meio à grave crise econômica, decisões políticas afetam o futuro dos trabalhadores

Os últimos dados do IBGE indicam que 8,2 milhões de brasileiros estão desempregados. A desaceleração econômica deste ano, responsável por liquidar 240 mil postos de trabalho, motivou o governo federal a criar o Programa de Proteção ao Emprego, que propõe a redução temporária de até 30% das jornadas de trabalho de setores produtivos fragilizados, com diminuição proporcional da remuneração dos funcionários.

A medida, que espera poupar pelo menos 50 mil empregos, não é a única discussão travada entre governo, empresários e trabalhadores. Em abril, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que amplia a terceirização, permitindo às empresas subcontratar todos os seus serviços. “Isso permitirá o aumento da rotatividade de empregos, a diminuição de salários e a precarização do mercado de trabalho”, afirma o professor Cássio Calvete. O projeto, criticado pelas principais centrais sindicais do país, será votado agora no Senado. Outra questão política diz respeito à discussão da previdência social: de acordo com dados das Nações Unidas, até 2050 o Brasil terá 22,5% de idosos em sua população, o que faz o país repensar seu atual modelo de aposentadoria. “Com essa tendência, teremos cada vez mais beneficiários e menos contribuintes”, diz Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em junho, a presidente Dilma Rousseff sancionou uma medida provisória para um novo cálculo da aposentadoria, baseado na soma de idade do contribuinte com o tempo trabalhado. Inicialmente, mulheres poderão pedir a aposentadoria quando a soma chegar a 85, e homens, a 95.

VOCÊ É O CHEFE
Mais jovens decidem empreender, mas o caminho para o sucesso não é fácil

Reunir alguns amigos de faculdade, escrever linhas de código, criar um aplicativo ou serviço de internet inovador e faturar alguns bilhões de dólares em pouco tempo. Com a massificação da tecnologia, criar grandes negócios a partir do zero não é mais uma realidade tão distante para jovens empreendedores de diferentes partes do mundo. “Um empreendedor pensa incansavelmente em melhorar algo. Mas, se antes era necessário construir uma fábrica, hoje o aumento da capacidade produtiva permite adaptar ideias de maneira rápida e sem mobilizar muito capital”, afirma Newton Campos, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em startups, nome dado às empresas de tecnologia que propõem métodos horizontalizados e menos engessados de organização corporativa. No Brasil, cada vez mais jovens estão dispostos a deixar de seguir uma carreira formal para criar o próprio negócio: dados da Associação Brasileira de Startups registram 3.515 jovens empresas cadastradas em seu banco de dados. Mas um levantamento realizado pela escola de negócios Fundação Dom Cabral indica uma realidade difícil: 25% das startups fecham as portas antes de completar um ano de vida, e metade delas encerra suas atividades em menos de quatro anos.

 (Foto: Revista Galileu)
PARA DESAFOGAR AS CIDADES
Distribuição de postos de trabalho e mudanças de rotina ajudariam a resolver até problemas urbanos

Não é preciso ser um grande observador para perceber que as principais cidades brasileiras precisam resolver em caráter de urgência a questão da mobilidade urbana. São Paulo e Rio de Janeiro são líderes mundiais no tempo de deslocamento da residência para o trabalho — 42,8 e 42,6 minutos, respectivamente. “Os postos de trabalho estão concentrados em regiões centrais e afastados da periferia, obrigando o trabalhador a percorrer uma grande distância em um sistema de transporte que não é integrado”, afirma Vitor Mihessen, que realizou um estudo sobre mobilidade urbana e mercado de trabalho no Rio de Janeiro em pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“As empresas também têm um papel fundamental nessa questão, porque já temos o aparato tecnológico para trabalhar a distância, além de mudar horários de expediente para conseguir uma fluidez melhor no trânsito”, diz. Para Giancarlo Bonansea, líder de inovação digital da consultora Accenture, as companhias devem se adaptar a essa flexibilização, sob o risco de perder jovens funcionários que não concordam com modelos rígidos de expediente. “Se é possível contratar parceiros que prestam serviços remotos a partir de outros países, por que não agir da mesma maneira com os profissionais da sua empresa?”, questiona o especialista. “Há um receio plausível sobre se o profissional estará produzindo ou não, mas o que se deve considerar é o resultado final do trabalho entregue.”

 (Foto: Revista Galileu)
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