“O empreendedor brasileiro ainda arrisca muito pouco”

Segundo André Monteiro, sócio da rede de empreendedores de tecnologia +Innovators, aversão a risco é cultural, mas geração dos millennials começa a mudar as regras do jogo

André Monteiro Innovators (Foto: Thiago Vitale)

Conhecer as dores, as ansiedades e as necessidades dos empreendedores brasileiros da área de tecnologia é o trabalho diário de André Monteiro. Aos 34 anos, o sócio da rede +Innovators – uma organização que conecta 17 mil empreendedores do Brasil e do Vale do Silício, na Califórnia – conhece bem as dificuldades que cercam os pequenos negócio no país.

Aos 16 anos, antes mesmo de ser formar em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Paraná, abriu sua primeira empreitada: vender bolsas de primeiros-socorros para motoristas, que haviam se tornado obrigatórias por determinação do governo. Depois, não parou mais: na faculdade, começou a organizar redes de relacionamentos entre empresas juniores e teve negócios em consultoria e relacionamento. Criou a Compra3, startup que fazia a integração de grandes varejistas de e-commerce com redes e ações sociais. Sentiu na pele a carência desse setor tanto por capital quanto por orientação.

Essa foi a inspiração para a criação da +Innovators, no final de 2010, junto de sua sócia Bedy Yang, brasileira de descendência chinesa baseada na Califórnia. Hoje, as atividades da rede como capacitação, orientação e difusão de conhecimentos tomam a maior parte do seu tempo. O que sobra vai para palestras e mentorias, além de atuações eventuais como conselheiro e sócio de fundos de investimento voltados para o venture capital, aquele destinado a startups em fase inicial.

Nos últimos dias, Monteiro tem se dedicado aos preparativos da quinta edição do TechMission, programa de capacitação que vai levar dez empreendedores brasileiros para uma imersão de sete dias em companhias do Vale do Silício e na Universidade de Stanford. Na semana passada, parou por alguns minutos a correria para conversar com Época NEGÓCIOS sobre o desenvolvimento da cultura empreendedora e da inovação no país. Confira abaixo como foi a conversa:

O que tem mudado nos últimos anos em termos empreendedorismo no Brasil?
Aos poucos temos uma mudança de mentalidade dessa geração mais jovem, os chamados millennials. É um pessoal que quer entrar no mercado, quer empreender. A opção está sendo ir para a área digital e para a área de tecnologia ao invés de abrir uma padaria, como era até alguns anos atrás. Isso mostra que temos melhorado consideravelmente a qualidade desses empreendedores.

O que para gente ainda é um desafio é a questão da conexão internacional. Um país como a Argentina, por exemplo, por mais que a economia esteja numa situação ruim, tem empreendedores que falam inglês e estão muito conectados à Espanha, pátria-mãe deles, e também já pensando numa carreira internacional. Os indianos tem a mesma questão, são internacionais por natureza, tudo que é feito lá é conectado com o resto do mundo. O Brasil, até por ser um país grande, com uma economia interna enorme, faz com que o empreendedor seja muito fechado em si mesmo. No máximo ele pensa que “vou estar no Brasil inteiro”. Ainda é um desafio mudar esse pensamento para “vou estar no mundo inteiro”.

O Brasil tem uma cultura de inovação própria? Ou é próximo à cultura americana, do Vale do Silício?
Temos algumas semelhanças baseadas na própria cultura dos povos. Economia, padrão de consumo, comportamento, tudo isso é próximo. Isso facilita muito quando você quer abrir um negócio lá fora ou trazer um sócio aqui para dentro. Em termos de diferenças, o brasileiro tem um diferencial criativo forte, que é muito admirado lá fora. Além disso, temos nossa adaptabilidade. O brasileiro está acostumado com a escassez e isso é uma pérola, um grande diferencial para uma empresa que está começando. Ele não se choca tanto com as dificuldades.

Eu acho que no futuro não vamos replicar o modelo do Vale do Silício nem o de outros países como Israel. Ainda estamos descobrindo o nosso próprio modelo. É algo muito embrionário, mas já começa a despontar por aqui a questão da preocupação social. Vemos profissionais saindo do mercado financeiro e indo para ONGs, por exemplo. Essa área tem potencial para se tornar uma verdadeira referência brasileira.

O que falta para surgir uma cultura de empreendedorismo mais forte no país?
As grandes empresas brasileiras ainda têm muita dificuldade de se conectarem as startups. Hoje toda empresa americana, independente da área de atuação, está ligada a esse universo porque sabe que é dali que pode sair uma inovação disruptiva que vai quebrar o negócio bilionário dela. Nossas empresas daqui têm outras prioridades e não percebem são essas startups que podem resolver problemas que elas têm em seus negócios.

Quais são as lições que ainda faltam ao empreendedor brasileiro?
Tem uma clássica: sonhamos grande, mas temos dificuldades em execução, em implementação. Ainda somos menos profissionalizados que em outros locais. Falta uma habilidade e um comportamento mais linear na hora de executar um projeto. Ainda vamos mais à base da tentativa e erro do que nos demais mercados. Também digo que o brasileiro ainda arrisca muito pouco. Acho que é uma coisa cultural esse medo, essa aversão a risco. Talvez seja algo que trazemos desde a época de nossos avós, que tinham a ideia de ter uma carreira tradicional e eterna dentro de uma mesma empresa. Essa busca por segurança é contrária à inovação, que te faz estar sempre testando, sempre buscando coisas novas.

Por que temos tão poucos fundos de seed capital e venture capital no Brasil?
Porque os investidores não querem risco [risos]. Ainda preferem investir em grandes empresas através do private equity porque lá você já tem o balanço e o histórico da companhia, é tudo muito tangível. Quando se chega às startups, no entanto, a aposta é muito grande. É o capital mais arriscado que existe. No Brasil, todo muito vai para o extremo do conservadorismo e aplica um pouquinho no variável. É preciso entender que por outro lado é ali que estão as grandes oportunidades de retorno.

Quais campos são mais promissores no país para as startups?
Qualquer área que use a tecnologia, de preferência a tecnologia digital. Para desenvolver inovações na área de biotecnologia, por exemplo, o ciclo é completamente diferente, são necessários estudos que podem chegar a cinco anos. Os investidores tem um perfil diferente, inclusive. Já a tecnologia digital permite se focar em segmentos onde o impacto é mais rápido e que geram mais transformações.

Claro, é preciso um pouco de cautela. O e-commerce, por exemplo, que foi uma febre, é algo que exige muito capital para crescer e gera muita alavancagem. Com coisas como o parcelamento em dez vezes, por exemplo, quem consegue se sustentar? E ainda tem juros altíssimos, logística complicadíssima. O e-commerce tem problemas críticos hoje no país. Por outro lado, o mundo offline traz muitas oportunidades. A internet das coisas é algo que tem crescido bastante. A área de agronegócios tem usado muita tecnologia, como sensores de que fazem medição para economizar água. Como 70% do gasto de água é na agricultura, tem uma demanda gigante por tecnologias que possam reduzir isso. Educação e saúde também são segmentos que têm muita escala para crescer com envolvimentos de tecnologia.

Além disso, no caso do Brasil, estamos em um momento de crise no qual você tem todo o mercado querendo reduzir custos e aumentar a produtividade. Isso abre um leque gigante de oportunidades para startups que vão utilizar a tecnologia para solucionar essas questões, em quaisquer áreas.

Para as startups a crise representa problemas ou oportunidades?
Muito mais oportunidades. A crise é justamente o momento de acelerar. O Brasil está internacionalmente mais barato e isso permite aos investidores diversificar mais, investir mais e, portanto, ter muito mais chance de sucesso. É na crise que os problemas das grandes empresas ficam muito mais aparentes e isso traz uma enorme oportunidade para startups que estejam buscando soluções para essas questões.

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